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  • Foto do escritorPsicólogo Flávio Torrecillas

A dificuldade que a vítima tem em estabelecer limites:

Estar ao lado de um narcisista e permanecer desenvolvendo um senso de personalidade e identidade própria é um ato de autossuperação, assemelha-se a nadar sozinha contra a corrente de um grande tsunami. O narcisista é naturalmente programado para não reconhecer limites entre ele(a) e as outras pessoas. Qualquer tipo de pensamento ou comportamento idiossincráticos de uma vítima são ignorados, descartados ou considerados como uma implicância ou afronta pessoal ao narcisista. A vítima aprende que a melhor maneira de evitar desentendimentos com o narcisista é se entregar de corpo e alma ao controle dele. Dizer não a um narcisista dá tanto resultado quanto pedir-lhe que faça somente as suas vontades. Um narcisista não é intelectualmente capaz de discernir entre ele e a vítima. Os dois são uma única pessoa, ou seja, o que ele quer, a vítima quer e o que ele gosta, a vítima gosta. Nada na vítima é independente. O narcisista não dá atenção quando a vítima o contraria, já que inexiste uma boa razão para convencê-lo de que o que ele considera certo não seja o melhor para os dois. O narcisista requisita a opinião da vítima tão somente para corroborar uma ideia dele ou para ter o prazer de ouvi-la articulada pelos lábios da vítima. Opiniões divergentes são automaticamente recusadas, visto que quando a vítima ousa exercer a sua autonomia de pensamento a mesma é interpretada como imbecilidade. Como a vítima não quer ser tratada como uma idiota, ela passa a concordar com ele em tudo: "Sim, amor". "Está bem, amor". "Claro, amor". "Também acho, amor". "Posso, amor". "Vou, amor".

A vítima concorda com o narcisista por razões diversas, mas principalmente para não ser chamada de "insensível" ou "egoísta". Simultaneamente, o medo de ter de enfrentar um episódio de ira narcisista estimula ainda mais a atitude conformista da vítima. A vítima se retrai dentro do próprio corpo só de imaginar ter de lidar com o narcisista quando ele fica intensamente insatisfeito. A vítima concorda com qualquer coisa para se autopreservar. Pouco a pouco, ela é programada a atender somente às necessidades dele, pois ele vem sempre em primeiro e único lugar. Quem não é educada a respeitar os seus próprios limites tem dificuldades de colocá-los em prática tanto dentro quanto fora do ambiente familiar. A vítima tende a agir de acordo com o seu "programa", ou seja, a aplicar o comportamento testado e reforçado durante a convivência com o narcisista. Grande parte das suas reações se tornou um mero reflexo da vítima. "Aceitar-e-assentir-para-satisfazer-e-agradar" tornou-se um modus operandi. Com o passar do tempo a vítima seguidamente se arrepende tanto do que diz, como do que faz. Inúmeras são as vezes em que a vítima concorda com o narcisista, sem ao menos saber o porquê. Tudo na vítima exala receptividade: a linguagem corporal, o sorriso e a postura. As outras pessoas sabem que podem contar com a vítima porque é isso que ela transmite com ou sem palavras. Independentemente da vontade da vítima, a dos outros tende a prevalecer. Por não ter sido valorizada como indivíduo quando criança, a noção de direito da vítima é corrompida. De acordo com a sua mentalidade, a vítima mantém relacionamentos através da sua capacidade de igualar seus sentimentos aos dos outros. Como a baixa autoestima da vítima não lhe permite respeitar a si mesma, ela é receosa de arriscar que age de forma genuína. Pela experiência da vítima, honestidade gera conflito e, por isso, deve ser evitada. Como a atitude da vítima foi moldada na base da chantagem emocional, ela tem dificuldade de distinguir quando está sendo usada ou maltratada por pessoas de interesses egocêntricos. Em razão disso é muito comum encontrar vítimas de narcisistas cercadas de companhias duvidosas, como de aproveitadores ou numa sequência de relacionamentos pessoais abusivos. A vítima é incapaz de reconhecer a extensão do mal que os outros lhe causam, sendo os seus relacionamentos inevitavelmente caracterizados pela autoanulação. A vítima ignora os seus sentimentos para não ser rejeitada, rejeitando a si mesma. A autorrejeição, por sua vez, amplia a insatisfação pessoal da vítima, completando o ciclo vicioso de comportamento irracional. É só adicionar a culpa a este caldeirão emocional que obtém-se também a receita perfeita do desafeto. Basta um evento negativo, como divórcio ou perda de emprego, para desencadear um episódio de depressão na vítima. A vítima precisa aprender a criar - e a manter - seus próprios limites. Para sentir-se segura e devidamente madura, é imperativo que desenvolva a capacidade de comunicar e respeitar seus próprios termos.


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